Como a menopausa afeta a relação conjugal segundo a psicanalista Anna Verônica Mautner

O efeito está na direta dependência do tipo de relação existente entre os cônjuges. Conheço casos de uniões estáveis que não suportam a perda de um filho. Conheço casais que afastam-se lentamente quando não querem mais ter filhos. Em geral é um resfriamento lento. Outros levam um choque quando confrontados com a realidade dos anos que passaram. E este choque às vezes afeta a libido. Um relacionamento que suporta transformações, provavelmente apresentará perfeita tolerância às possíveis transformações corporais que ocorrem neste período.

Do ponto de vista psicológico, a perda de uma mama, uma cicatriz, a perda de dente, flacidez muscular, menopausa, atingem todos a mesma questão. É o casal capaz de viver mudanças? Existe um dado de realidade que não podemos subestimar: a questão da virilidade. A mulher e o homem, no correr dos anos, perdem virilidade. O homem, quando chega à idade do "lobo", vai procurar uma jovem para mostrar que continua viril. É a moça ao lado que lhe outorga e legitima a virilidade. A mulher tem mais dificuldade em atrair para seu lado um símbolo de virilidade. Apesar de que a cada dia vem ficando menos chocante a presença de um jovem ao lado de uma senhora. A ele não falta virilidade e ao lado dela ele ganha proteção. Mas somente um relacionamento multifacetado, com ênfase semelhante para cada faceta, vence os períodos de transformação.
Quando a relação do casal é consolidada pelo crescimento, por projetos em comum, é provável que a transformação física afete mas não desequilibre a relação. A menopausa, o empobrecimento e a conseqüente perda de status ou estabilidade econômica, bem como a perda de um ente querido ou uma doença crônica só não afetam o casal cuja relação se baseia em muitos campos de interesse em comum.

Quanto aos que se separam e têm de atravessar sozinhos esta fase, o que dizer? Vivemos em um mundo em que os quartos, as cabines de trem, de navio, as mesas em restaurantes, tudo é feito para dois, sejam pares ou múltiplos de pares. Não é fácil viver com um lugar vazio ao lado. Não é fácil ficar na contramão neste mundo da aparência jovem, saudável, definida de acordo com os pressupostos da indústria de confecção. Mas não é impossível. A consciência da falta não resulta, obrigatoriamente, em infelicidade e pode ser preenchida de muitas formas. De qualquer maneira, idade madura, menopausa, vida de solteira, não são troféus a serem expostos em praça pública.


      Anna Verônica Mautner

     Psicanalista


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